Medicina de precisão é a prática de ajustar prevenção e tratamento às características de cada pessoa, usando dados clínicos, genômicos e moleculares. As diretrizes clínicas, construídas a partir de estudos com milhares de participantes, descrevem o que funciona em média. A medicina de precisão parte delas e acrescenta uma pergunta: por que duas pessoas com o mesmo diagnóstico respondem de forma oposta ao mesmo remédio, à mesma dieta ou ao mesmo treino?
Na prática, isso significa decidir quem precisa de tratamento mais cedo, qual medicamento tende a funcionar melhor e em que dose. Na Cardioendocrino, o diagnóstico continua sendo o ponto de partida; genética, biomarcadores, exames atuais e rotina entram na mesma análise sempre que a indicação clínica justifica.
A prática se apoia no modelo P4: medicina preditiva, preventiva, personalizada e participativa. Na consulta, ele se traduz em três eixos que conversam entre si.
Algumas doenças dependem de um único gene, como a hipercolesterolemia familiar, que afeta cerca de 1 em cada 250 pessoas e tem diagnóstico confirmado por teste genético. A maioria depende da soma de milhares de pequenas variações, medida pelo escore de risco poligênico, que usamos para reclassificar risco e definir o momento certo da prevenção.
O clopidogrel, usado após a colocação de stent, depende da enzima CYP2C19 para ser ativado. Quem carrega variantes de perda de função ativa menos o remédio e fica menos protegido. Com a sinvastatina, variantes do gene SLCO1B1 aumentam o risco de dor e lesão muscular. Nesses casos, o teste orienta a escolha do medicamento ou da dose, seguindo as diretrizes do CPIC, o consórcio internacional que padroniza esse uso.
Os genes descrevem uma predisposição, e a expressão deles depende do que acontece ao longo da vida. Alimentação, atividade física, sono, estresse, tabagismo e poluição formam o exposoma, e é sobre ele que a medicina do estilo de vida atua. Num estudo com mais de 55 mil pessoas, quem tinha alto risco genético e estilo de vida favorável apresentou cerca de 46% menos risco coronariano do que quem tinha o mesmo risco genético e hábitos desfavoráveis.
A maior parte das doenças comuns, como infarto, diabetes tipo 2 e fibrilação atrial, não depende de um único gene. O risco vem da soma de milhares de pequenas variações espalhadas pelo genoma. O escore de risco poligênico reúne essas variações num único resultado e mostra onde cada pessoa se posiciona em relação à população.
O valor do escore aparece quando ele entra numa decisão clínica. Ele pode ajudar a reclassificar quem está em risco intermediário de doença coronariana, a definir a idade para começar exames como o escore de cálcio, a antecipar o início de estatina e a priorizar a prevenção em quem já tem pré-diabetes.
Interpretar bem exige alguns cuidados. Estar no percentil 90 de risco genético quer dizer que 90% das pessoas têm escore menor; a chance real de adoecer depende de quanto esse resultado se soma ao LDL, à lipoproteína(a), à pressão arterial e à história familiar. Por isso, o percentil é convertido em risco absoluto antes de qualquer conduta. Também é preciso considerar que boa parte dos escores foi desenvolvida em populações de ancestralidade europeia, o que pede cautela na leitura para a população brasileira.
É nessa leitura, feita em consulta, que o número passa a orientar o tratamento.
Cada ferramenta usada na nossa prática tem respaldo em documentos publicados por sociedades e consórcios científicos. Elas entram na consulta para responder a uma pergunta clínica definida e se somam à avaliação tradicional: história clínica, exame físico e exames de rotina continuam sendo a base.
Mantém a tabela oficial de biomarcadores farmacogenômicos citados nas bulas de medicamentos aprovados.
Publica diretrizes de prescrição guiada por genótipo, organizadas por par de gene e medicamento.
Definiu, junto com a AMP, os critérios para classificar uma variante genética como patogênica, provavelmente patogênica, de significado incerto, provavelmente benigna ou benigna.
Publicou em 2022 uma declaração científica sobre escores de risco poligênico em doença coronariana, hipercolesterolemia, diabetes tipo 2, fibrilação atrial e tromboembolismo venoso.
Publicou com a EASD, em 2020, o consenso sobre medicina de precisão em diabetes, que reconhece o diagnóstico genético das formas monogênicas como aplicação já viável na prática.
Define os seis pilares da medicina do estilo de vida: alimentação, atividade física, sono, manejo do estresse, relações sociais e eliminação de substâncias nocivas.
Publica as diretrizes de referência para avaliação e prescrição de exercício.
Medicina de precisão e medicina personalizada costumam aparecer como sinônimos. Na nossa prática, os dois termos descrevem etapas diferentes do mesmo raciocínio clínico.
Precisão se refere às ferramentas de medida: sequenciamento genético, escore de risco poligênico, metabolômica, calorimetria indireta, ergoespirometria. São elas que mostram o que o exame de rotina não alcança, como a carga genética para doença coronariana ou o gasto energético real em repouso.
Personalização é a etapa seguinte, e acontece na consulta. O resultado desses exames é lido ao lado da glicemia e do perfil lipídico atuais, da história familiar, do padrão de sono, do nível de estresse e dos objetivos de cada pessoa. É nesse cruzamento que a informação técnica vira plano de cuidado.
Um dado genético isolado descreve uma probabilidade. Cruzado com os marcadores atuais, ajuda a decidir. Um escore poligênico alto numa pessoa com LDL limítrofe e escore de cálcio zero leva a uma conduta; o mesmo escore ao lado de uma placa coronariana já instalada leva a outra. Esse cruzamento permite agir antes de a doença aparecer, com intensidade proporcional ao risco real de cada pessoa.
Identificamos quem precisa de intervenção precoce intensiva e quem pode seguir condutas mais conservadoras, evitando tratamentos desnecessários.
Medicamentos e mudanças de estilo de vida partem do que funciona para a maioria e são ajustados pelo que os dados daquela pessoa indicam.
Entender os próprios resultados permite que cada pessoa participe das decisões sobre o próprio tratamento, com clareza sobre o que cada exame mostra e o que ele não consegue mostrar.
Entender os próprios resultados, os riscos acima da média e os que dependem mais dos hábitos do que dos genes, permite que cada pessoa participe de cada decisão sobre o próprio tratamento.
Algumas pessoas preferem que a nossa equipe conduza todo o cuidado. Outras já têm um médico de confiança e querem acrescentar a avaliação genética ao acompanhamento que fazem. Por isso, trabalhamos em dois formatos.
Os exames, a interpretação e a conduta ficam com a nossa equipe: prescrição, ajustes de estilo de vida e monitoramento ao longo do tempo, com os dois médicos no caso desde a primeira consulta.
Para quem já tem um médico e quer manter esse acompanhamento. Fazemos a análise genética e entregamos um relatório técnico-científico escrito para o seu médico, com os achados que têm implicação clínica e as referências que os sustentam. Ele segue conduzindo o tratamento, agora com mais informação para decidir.